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O Inicio do Conflito Igreja x Maçonaria

Para um melhor entendimento do assunto que estamos estudando, necessitamos remontar à fundação da Grande Loja de Londres. Como vimos em outros estudos, aquele acontecimento tinha por finalidade não somente estabelecer um centro de união e de harmonia entre homens de seita e partidos diferentes, que se digladiavam há mais de dois séculos em guerras político-religiosas, e que tinham levado a Inglaterra ao mais completo relaxamento de costumes e desprezo pela religião, mas também oferecer um oásis de paz, tolerância e moralidade de que precisavam urgentemente os homens de bem asfixiados naquele mundo de corrupção, deboche e irreligião.  
Fundada a Maçonaria Especulativa em 1717, em Londres, nela se congregavam "homens livres e de bons costumes" de todos os credos religiosos e políticos, com a proibição expressa de discutir tais assuntos em Loja, para que não fosse destruída a harmonia que se pretendia, sabendo-se que eram a causa principal de divergência entre os homens. E assim, na Inglaterra anglicana, protestante e antipapista do início do Século XVIII, pôde ser eleito Grão-Mestre em 1729-1730, o católico praticante Thomas Duque de Norfolk.  
A sociedade tinha estabelecido na sua lei fundamental que o Maçom devia obedecer à lei moral e não ser um estúpido ateu nem um irreligioso libertino. Deixava-o livre, porém, de praticar a sua própria religião, assunto no qual a Maçonaria não pretendia interferir e nem dogmatizar.  
Não se tratava, pois, de uma nova "seita" que surgia; era apenas uma sociedade civil aberta a homens de todas as seitas que então pululavam, para que fraternizassem entre si. Nada mais.  
De repente, em 1738 o Papa Clemente XII fulmina a primeira bula contra os Maçons a constituição ln Eminenti. A razão desta violência inominável? A própria base da criação da sociedade fraternal, o falacioso pretexto de que se desenvolviam assembléias.
"... que se chamam vulgarmente os franco­maçons - ou têm outra denominação, segundo a variedade das línguas - nas quais se ligam homens­ de todas as religiões e seitas, sob aparência de honestidade natural, por um pacto estreito e, impenetrável, conforme leis e estatutos por eles criados, obrigando-se debaixo de juramento e sob penas graves a ocupar por um silêncio inviolável tudo o que praticam nas sombras do segredo...”.
Não podemos nos expandir aqui em mais amplos comentário; no entanto, os teólogos que fizeram assinar a bula ao octogenário e valetudinário pontífice cego, a constituição In, Eminenti, exarada na costumeira insultuosa linguagem sagrada, alegaram que tais sociedades eram elementos perigosos à segurança dos reinos, ponderando que grandes males resultavam dessa espécie de sociedades, "não somente para a tranqüilidade dos Estados temporais, mas ainda para a salvação das almas...". E assim, por estas "e por outras causas justas e razoáveis por nós conhecidas", resolviam condenar e proibir as mencionadas sociedades, "e isto debaixo de pena de excomunhão, na qual se incorre pelo fato e sem outra declaração, e da qual ninguém pode ser absolvido senão por nós, ou pelo Pontífice Romano reinante, exceto em artigo de morte".  
Mas, como já dissemos, não vamos tecer maiores comentários sobre tais alegações nem sobre as "outras causas justa e razoáveis" ocultas, neste estudo; pensamos fazê-lo em outro mais alentado, a fim de tentar esclarecer definitivamente o conflito eclesiástico-maçônico. De toda maneira, os teólogos do Século XVIII, que tanto profligaram e continuam profligando as perseguições romanas, utilizavam ainda métodos semelhantes. É que pimenta na boca dos outros não arde.
Entretanto, surgindo dúvidas, duas décadas depois, se as medidas excomunicatórias de Clemente XII contra os Maçons continuavam em pleno vigor, os mesmos teólogos fizeram assinar pelo Papa Bento XIV nova bula, que reforçava a primeira. Assim, um papa inteligente, “um pacificador um”, conciliador, que aconselhou Maria Teresa (da Áustria) a tolerar os protestantes nos seus Estados", como nos informa Alec Mellor, assinava a bula Providas Romanorum Pontifi­cum, que repisava os motivos de condenação da primeira, porém de forma mais explícita:
naquelas sociedades secretas estavam filiados indistintamente homens de todos os credos; "daí ser evidente a, resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica”,
a obrigação do segredo indevassável, porque "as coisas honestas gozam de publicidade; as criminosas, do segredo". Esqueciam os teólogos que também o cristianismo, na antiga Roma, passaram pelos mesmos transes. Era uma sociedade secreta que atraia as iras das autoridades.
O juramento que garantia o segredo, "como se fosse permitido a qualquer um apoiar-se numa promessa de juramento com o fito de furtar-se a prestar declarações ao legítimo poder, que investiga se em tais assembléias secretas não se maquina algo contra o Estado, contra a Religião e contra as Leis". A Maçonaria não tinha aberto as suas portas aos homens decentes fossem eles religiosos, altas personalidades, autoridades, etc.? A policia não era informada de tudo que ­se passava na sociedade através de seus agentes que dela faziam parte como membros?
As Pandectas de Justiniano (483-565) proibiam a existência de sociedades; "sociedade alguma ou reunião podia existir e constituir-se sem a devida autorização do príncipe”. É que os príncipes eram sempre temerosos pelos abusos que cometiam, não havendo leis para eles.
As ditas sociedades e agregações foram proscritas e eliminadas por leis de príncipes seculares. Naturalmente pelas mesmas razões acima expostas.
"A última enfim é: que as tais sociedades e agremiações são reprovadas por homens prudentes e honestos e, no ­pensar deles, quem quer que se inscreva nelas merece o ferrete de depravação e perversidade”.
O Leitor pode pensar que estamos inventando todas razões especiosas. Absolutamente não. Veja-se o livro de Dr. Boaventura Kloppenburg A Maçonaria no Brasil, IV Edição, 1961, p. 319, que reproduz o texto da bula Providas que, parece inacreditável, recorre também às capitulares do imperador Carlos Magno para justificar o absurdo:
"E uma vez que os príncipes soberanos e os poderes são designados por Deus, são defensores da fé e protetores da Igreja, por obrigação devem empenhar-se com toda a sorte de boas razões que sejam observadas à risca as Constituições Apostólicas. Ê o que lhes lembraram os padres do Santo Concílio de Trento, na 25ª sessão, cap. 20, e já mui anteriormente havia esplendidamente declarado o Imperador Carlos Magno, que, após ter recomendado a todos os seus súditos a observância das leis eclesiásticas, acrescentou: "De modo algum pendemos reconhecer por fiéis os súditos infiéis a Deus e desobedientes aos seus sacerdotes". E por isso ordenou a todos os chefes e oficiais de seu Império que obrigassem a todos os súditos à observância e obediência das leis da Igreja, sancionando penas muito severas aos infratores.
"Entre outras, disse: "Aqueles que forem reconhecidamente (o que Deus não permita) negligentes ou desobedientes neste ponto, saibam que não podem ocupar lugar algum em nosso Império, sejam embora nossos filhos, nem viver no palácio, e menos ainda ter qualquer sociedade ou comunicação, nem conosco, nem com os nossos, mas sofreram as penas de fome, sede e prisão"...
"A ninguém, pois, seja lícito infringir esta página de nossa confirmação, invocação, requisição, decreto e vontade ou temerariamente contrariar. Caso alguém o presumir, saiba que incorrerá na ira de Deus Onipotente e de seus bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo. . ." (p. 320)
Tão sólidos eram os motivos dos teólogos - é claro que fazemos uma grande distinção entre Igreja e clero, por mais elevado que ele possa ser -, que precisaram estribar-se nas Pandectas do Imperador Justiniano, remontando ao Século VI, e nas Capitulares de Carlos Magno, analfabeto, do Século IX. Tão ponderadas e tão justas eram as razões apresentadas pelas Constituições pontifícias que ninguém lhes deu importância maior. Na França, o Parlamento não as registrou e por isso não se tornaram obrigatórias. Aqui no Brasil, multiplicando-se no Século XIX, D. Pedro II não permitiu que as bulas tivessem força de lei, sendo então provocada a Questão Religiosa para forçar-lhe a mão. Mas D. Pedro II não era nenhum analfabeto, e por isso não cedeu.
Na França, as bulas dividiram os bispos. Alguns, raríssimos, condenaram a Maçonaria; os outros nem ligaram. O Arcebispo de Tours, de Congié, chegou mesmo a caçoar do Bispo de Quimper, que era hostil às Lojas.
Foi este o início da questão, estes os motivos apresentados. Devia ser imensa a ignorância daquele Clero setecen­tesco, quer nobre, quer plebeu. A verdade é que a Igreja nunca entendeu nada a respeito da Maçonaria, e até hoje.

Bibliografia: Landmarques e outros problemas maçônicos. Nicola Aslan.  

Fraternalmente, Virgilio Pinto de A Neto.
V.'.M.'.da Loja Maç.'. Calixto Nóbrega, nº 15. REAA - GLMEPB - Sousa - PB.

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